Arquitectos em Foco: Quatro das mulheres mais influentes da nossa arquitectura

Março é o mês da mulher, e a equipa do The Sanzala aproveita para fazer aqui uma matéria sobre algumas das mulheres mais influentes da nossa arquitectura. Curiosamente, em Angola, o nosso “star system” (ou aquilo que mais se assemelha), é constituído maioritariamente por mulheres, principalmente no que toca a academia, teoria e activsimo (se o pudemos considerar). Os nomes foram dispostos em ordem alfabética, descurando qualquer preferência e/ou ordem por relevância:

 

Ângelas Mingas:

É muito provavelmente o caso mais próximo de um(a) “arquitecto(a) estrela”, no nosso contexto. Pois na última década foi das vozes mais críticas à especulação imobiliária que se fez sentir no centro da cidade de Luanda e a consequente perda do seu património arquitectónico e urbano. Iniciou e envolveu-se em várias acções para preservação do nosso património arquitectónico e manutenção dos musseques mais emblemáticos da cidade de Luanda. Foi também uma das vozes mais críticas das novas centralidades (Kilamba especialmente), pois defende a preservação do “modus vivendi” do povo luandense. Até meados do ano de 2017 esteve a frente do Núcleo de Estudos e Artes, Arquitectura, Urbanismo e Design da Universidade Lusíada de Angola, quando foi convidada para ocupar o cargo de Secretária de Estado para o Ordenamento do Território, cargo que ocupa até o momento. Ângela Mingas é formada em Pedagogia, Arquitectura e Antropologia. Licenciada pela Universidade Técnica de Lisboa (Portugal), desde 1998, e mestre em Arquitectura pela Universidade Lusíada do Porto (Portugal), com a dissertação intitulada “Centro Histórico de Luanda”.

A arquitecta Ângela Mingas no CCB, Lisboa. © Rui Gaudêncio

Cristina Câmara:

Formada em arquitectura paisagista pela Universidade Técnica de Lisboa (Portugal), desde 2001, e mestre em Sistemas de Informação Geográfica, Cristina Câmara é muito ligada as questões sociais e ambientais no processo de desenvolvimento das cidades. Esteve envolvida em vários projectos de requalificação urbana de alguns dos mais importantes bairros luandenses, sendo uma voz crítica dos modelos de desenvolvimento urbano propostos e dos processos pouco transparentes. Foi sempre uma voz activa no que concerne a adopção de um modelo urbano mais sustentável, tendo em conta as condicionantes naturais do território, e do despertar de consciências para as consequências das alterações climáticas. Trabalhou como chefe de planeamento do Gabinete Técnico de Reconversão Urbana do Cazenga, Sambizanga e Rangel͟, entre os anos 2011 e 2014, e como coordenadora do Curso de Planeamento Regional e Urbano no Instituto Metropolitano de Angola, entre os anos 2014 e 2016.

É muito provavelmente a única arquitecta(o) angolana(o) a ter frequentado o Massachusetts Institute of Technology (Estados Unidos da América), considerada a melhor universidade do mundo, de onde saíram mais de 85 Prémios Nobel. Possui também uma forte veia literária, tendo colaborado com o movimento Levarte, e sendo conhecida no mundo artístico pelo pseudónimo “Lueji Dharma”.

A arquitecta Cristina Câmara. Fonte aqui

Isabel Martins:

Docente no Departamento de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto desde 1985, Isabel Martins faz parte de um leque de arquitectos que ajudou a moldar e a solidificar a profissão “arquitecto(a)” no nosso país. Licenciada em Arquitectura pela Universidade Agostinho Neto, doutorada em História da Arquitectura pela Universidade do Porto (Portugal) e especialista em “Pianificazione Urbana e Territoriale nei paesi in via sviluppo – Requalificazione Urbana” pelo Instituto Universitário di Architettura de Veneza da Universidade de Tolentini (Itália), Isabel Martins é membro fundadora da Ordem dos Arquitectos de Angola e da Associação dos Arquitectos Angolanos. Desenvolveu vários trabalhos com instituições nacionais e internacionais, com o foco principal nas cidades e no património arquitectónico, e possui um vasto trabalho no campo da investigação científica, sendo uma forte crítica ao processo de descarectização da cidade de Luanda, impulsionado pela forte especulação imobiliária que se fez sentir no pós-guerra. Actualmente ocupa o cargo de chefe do Departamento de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto.

A arquitecta Isabel Martins, Luanda. © Lito Kahangulo

Paula do Nascimento:

Praticamente desconhecida para a sociedade civil, Paula do Nascimento é amplamente conhecida nos círculos da arquitectura nacional e até internacional. Licenciada em arquitectura pela Architectural Association School of Architecture (Reino Unido), desde 2004, e mestre pela London South Bank University (Reino Unido), desde 2009, foi a arquitecta e coordenadora responsável pelo projecto do pavilhão de Angola para Expo Milão 2015 (Itália), Expo Astana 2017 (Cazaquistão) e actualmente está encarregue pelo projecto do pavilhão de Angola para Expo Dubai 2020 (Emirados Árabes Unidos). Representa uma nova geração de arquitectos cosmopolitas, com fortes influências internacionais, e com uma abordagem mais multidisciplinar da profissão, renunciando muitas vezes aos dogmas estabelecidos no nosso meio. É fundadora e directora da Beyond Entropy Africa, do qual faz parte também o arquitecto italiano Stefano Rabolli Pansera, com quem mantém uma parceria de alguns anos. Entre outras actividades, está também muito ligada a cultura, com acções que visam a promoção e divulgação de eventos artísticos um pouco por toda a cidade de Luanda.

A arquitecta Paula do Nascimento em uma entrevista, Luanda. © ANGOP

7 Comentários

  1. Leonilda Will Gonçalves Responder

    Queria muito ter participado… É de louvar por mais palestras assim

  2. Com o devido respeito pelas arquitectas mencionadas neste artigo cujas obras desconheço em em publicações da especialidade, penso que foi omitido o nome de uma arquitecta com bastantes anos de experiência reconhecida internacionalmente e com publicações que atestam um longo trabalho e dedicação à profissão tanto num contexto estético como social, o nome é Maria João Teles Grilo cujo trabalho conheço em profundidade. Merecia ter este reconhecimento pelo seu envolvimento próximo com Angola que promove sempre que tem oportunidade em conferências internacionais e debates em plataformas profissionais.

    • Agradecemos pelo seu comentário Miguel. Apresentamos apenas quatro das arquitectas, poderiam ser mais. Concordamos quando afirma que a arquitecta Maria Grilo é também um dos principais nomes (femininos) na arquitectura em Angola. Com certeza, pelo vasto trabalho que tem, será certamente referenciada num dos próximos artigos.

  3. Obrigado pela vossa resposta naturalmente que a vossa escolha foi feita segundo critérios por vocês estabelecidos , academia , teoria e activismo, no meu modesto entendimento na matéria, penso que a prática é de crucial importância na definição de um arquitecto, assim como, na minha área de artista visual e curador dos novos media, o exercício da prática define o meu trabalho.

  4. Desculpem, mas deixar de fora a arquiteta Maria João Teles Grilo que para além de arquiteta com obra nacional e internacional representando Angola em vários certames de grande relevância é também professora de arquitetura na Universidade Agostinho Neto é uma grande lacuna que deve ser imediatamente preenchida.

    • Agradecemos pelo seu comentário Victor. Apresentamos apenas quatro das arquitectas, poderiam ser mais. Concordamos quando afirma que a arquitecta Maria Grilo é também um dos principais nomes (femininos) na arquitectura em Angola. Com certeza, pelo vasto trabalho que tem, será certamente referenciada num dos próximos artigos.

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