Arquitectos em Foco: Francis Kéré

Diébédo Francis Kéré, Francis Kéré, como é conhecido, nasceu em 1965 no Burkina Faso. Estudou na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Berlim e em 1998 criou a associação Schulbausteine fur Gando, actual Kéré Foundation (Fundação Kéré), cujo objectivo é apoiar o desenvolvimento do seu país, conjugando os conhecimentos que adquiriu na Europa com os materiais e métodos construtivos típicos do seu país. Em 2005 criou o Kéré Architecture.

A arquitectura tenta moldar uma necessidade. A necessidade humana cria espaços onde as pessoas possam estar; onde as pessoas possam dormir; onde as pessoas possam trabalhar; onde as pessoas se possam amar e onde possam aprender. Francis Kéré.

Arquitecto Francis Keré. © Erik Jan Ouwerkerk 

O seu trabalho tornou-se internacionalmente reconhecido com a construção da Escola Primária de Gando; da  Extensão da Escola Primária; da Escola Secundária de Dano; do projecto construído de Habitação para Professores; pelo Museu Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, entre outros que lhe valeram os galardões de Chevalier de L’Ordre National of Burkina Faso, Aga Khan Award for Architecture, Zumtobel Group Award, Global Award for Sustainable Architecture,  Green Planet Architects Award,  Schelling Foundation Architecture Award, Kenneth Hudson Award, Archdaily Building of the Year Awards, EuroShop RetailDesign Awards, Arnold W. Brunner Prize e o  Prince Claus Award.

O espólio arquitectónico de Keré abrange países como o Mali, Alemanha e a Suíça. Paralelamente, deu aulas na Universidade de Harvard e na Academia de Arquitectura de Mendrisio, na Suíça.  Em 2017 aceitou o convite para leccionar na TU Munchen, na Alemanha.

Escola Primária, Kéré Architecture. © Erik Jan Ouwerkerk

A complexidade da sua obra tem tentáculos que se expandem e demarcam uma enorme componente social, climática, económica, intelectual, procurando fazer a charneira entre a cultura ocidental, onde vai buscar a tecnologia, à qual alia os materiais da cultura africana, no caso de Burkina Faso: a madeira e o adobe. Sendo este um dos países mais pobres do mundo e onde os fundos direccionados para a construção de infraestruturas e onde o financiamento privado é pouco, é de suma importância que as soluções arquitectónicas propostas sejam economicamente acessíveis, pelo que, por um lado, recorre ao adobe e à madeira como forma de minimizar os custos de construções e, por outro, por ser um material cujas técnicas a população domina e lhes é familiar. Estes materiais, nomeadamente o adobe, funcionam perfeitamente no clima de Burkina Faso, onde a temperatura atinge os 45º. O adobe tem a particularidade de preservar a temperatura interna do edifício mantendo o calor no exterior. Logo, com o domínio do material, facilmente se proporciona conforto ao utilizador sem recorrer à climatização artificial.

O material local, associado às técnicas necessárias para desfrutar do seu máximo potencial, transformam projectos banais em extraordinários, fazendo com que a população se sinta orgulhosa por ter este tipo de edifícios na sua comunidade. Ao se usufruir dos meios e dos materiais que estão facilmente disponíveis nas comunidades abre-se um leque de maiores e melhores opções para o futuro das mesmas e com a aceitação do uso dos materiais locais também se vão abrindo janelas de aceitação cultural. Porque, por exemplo, no Burkina Faso, inicialmente as comunidades não estavam predispostas a trabalhar com um material tão simples como a argila mas, ao verem o produto construído; o seu aspecto interior e o exterior, a sua opinião foi-se alterando no sentido de aceitar aquele como o material de eleição para a construção dos edifícios naquele país.

Inclusão da população na construção da Biblioteca de Burkina Faso, Kéré Architecture. © Retidado do Kéré Architecture.

Estas são obras dotadas de uma forte componente de inclusão social, pois a população participa na construção das mesmas. Assim, estas (as obras) adquirem uma dimensão muito maior, uma vez que também fazem parte de um universo igualmente grande. Ao incluir a população na construção da obra, gera-se um sentimento de pertença generalizado, fazendo com que o edifício em vez de ser encarado como um elemento alheio, se torne num elemento agregador no qual a população se revê e do qual sente orgulho, porque lhe pertence. Portanto, este aspecto, faz do contacto com a população um factor primordial do seu trabalho enquanto arquitecto.

Em todos os seus trabalhos, Kéré procura evidenciar o carácter social do arquitecto e da profissão, reforçando a cultura local do país em que se inserem as obras e melhorando a vida das pessoas que delas usufruem.

O seu trabalho foi objecto de exposições no Museu de Arquitectura de Munique e no Museu de Arte de Filadélfia, ambas em 2016. Algumas obras têm sido seleccionadas para exposições como “Small Scale, Big Change: New Architectures of Social Engagement” (Pequenas escalas, Grandes Mudanças: Novas Arquitecturas de Carácter Social) no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MOMA) em 2010 e “Sensing Spaces” (Espaços Sensoriais) na Royal Academy, em Londres, em 2014.

 

Para mais fontes consultar:

Keré ArchitectureEnlace ArquitecturaPlataforma Arquitectura “Entrevista: Diébédo Francis Kéré / Kéré Architecture”, TED Ideas  Worth Spreading “How to build With clay and the community”, Louisiana Channel “Architecture is a wake up call”

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