Inaugurada em Munique a exposição “African Mobilites: This is Not a Refugee Camp Exibition”

Foi inaugurada no passado dia 25 de Abril, a exposição “African Mobilities: This is Not a Refugee Camp Exibithion” (African Mobilities: Esta Não é Uma Exposição de Campo de Refugiados), no Architekturmuseum Der TUem Munique, Alemanha. A exposição, a decorrer entre os dias 26 de Abril e o dia 19 de Agosto de 2018, pretende explorar a complexidade da mobilidade em África, tanto a física, como de ideias, no contexto mundial actual. O corpo da organização é constituído por nomes como a arquitecta sul-africana, doutorada pela Universidade da Califórnia, Mpho Matsipa, enquanto curadora principal do evento, pelo historiador e curador alemão Andres Lepik, pela historiadora e curadora alemã Teresa Fankhänel, pela arquitecta sul-africana, doutorada pela Universidade de Cape Town, Ilze Wolff, pela arquitecta, mestre pela Deakin University, Jennifer van den Bussche, e a agência sul-africana Bubblegum Club.       

“Shanty Megastructure”. © Olalekan Jeyifous

A exposição contou com o design da Wolf Architectse com o contributo de uma série de artistas, arquitectos, designers, e urbanistas, entre eles a arquitecta e curadora angolana, Paula Nascimento. Além da arquitecta angolana, a exposição contou também com nomes como Thembinkosi Goniwe, Solam Mkhabela, Sammy Baloji, Patricia Anahory, César Schofield Cardoso, Olawale Lawal, Olalekan Jeyifous, Nolan Oswald Dennis, Njoki Ngumi, united4design, Kirsten Doermann, Jean-Charles Tall, Issa Diabaté, Mabel Wilson e Mario Gooden (Global Africa Lab), Emanuel Admassu, Doreen Adengo, William Monteith, Dana Whabira, Chimurenga, Blessing Blaai, e Aissata Balde.

“Shanty Megastructure”. © Olalekan Jeyifous

Segundo a descrição da arquitecta Paula Nascimento, o evento resume-se melhor como um processo, do que como uma exposição ou projecto, pois durante o período de um ano, os vários profissionais participaram em vários workshop’s temáticos de intercâmbio internacional, em cidades um pouco por todo mundo. Deixamos aqui uma breve descrição da arquitecta sobre o African Mobilites, extraída directamente da sua conta do Facebook:

Numa época em que a crise de refugiados atinge níveis alarmantes – de acordo com o relatório da UNHCR de 2015, aproximadamente 26% da população refugiada é proveniente da África subsaariana – e em que as fronteiras são redesenhadas e policiadas; em que territórios domésticos são alterados por alinhamentos geopolíticos, torna-se crucial reflectir sobre o conceito de mobilidade sob diversas vertentes, para além da imagem e das narrativas dos campos de refugiados.

O projecto AMO, como um todo, assume-se menos como uma exposição de projectos/objectos, mas como um processo: durante um ano, um leque diverso de profissionais: artistas, arquitectos, urbanistas, entre outros, participou de forma activa em workshops temáticos – Exchanges – realizados em diferentes cidades: Dacar, Harare, Joanesburgo, Campala, Lagos, Nova Iorque, Praia (no qual participei com o tema ‘topografias deslocadas’).

O objectivo, criar uma plataforma colaborativa e de diálogo entre intelectuais, repensar a geografia das migrações no continente e desenhar novas cartografias.

É certo que a constante movimentação de pessoas e bens não se restringe à África, e que temas decorrentes destas migrações, como o sobrepovoamento ou a falta de infra-estruturas, são também fruto de certos modelos de urbanização. A pesquisa iniciada em African Mobilities convida-nos a reflectir sobre como a arquitectura e o design exploram e respondem a diferentes tipos de mobilidade dentro e fora do continente africano: circulação fronteiriça, extracção de recursos, migrações rurais e urbanas, deslocamentos e reassentamentos resultantes de guerras, factores políticos, crises ecológicas, requalificação urbana e a criação de tábulas rasas, tanto em espaços físicos como em espaços virtuais e imaginários.

Como é que as cidades se transformam, tornando-se locais de refúgio para populações nómadas? Qual o papel da arquitectura em cenários de extrema mobilidade? Como delinear estratégias de intervenção que respondam aos desafios propostos pelas cidades africanas contemporâneas?

É possível criar novos caminhos para a criação do presente e de possíveis futuros? Estas são questões que permeiam o projecto como um todo, que, para além da exposição itinerante, inclui uma conferência, uma publicação digital e uma plataforma pedagógica online, conceptualizada como um arquivo vivo que alberga os conteúdos dos workshops e das masterclasses.

© Simba Mafundikwa

Segue uma tradução livre do texto de Mpho Matsipa sobre a exposição, extraída directamente do site do evento, podendo  esta ser alterada mediante sugestões:

A exposição ‘African Mobilities’ explora como a arquitectura responde às complexidades da migração e da circulação de pessoas, ideias, recursos e estética – tanto no espaço físico bem como nos espaços da imaginação. A ideia de “casa” evoca tradicionalmente um santuário e uma fonte de poder. Mas “casa” é, às vezes, simultaneamente, um espaço de vulnerabilidade e precariedade significativa, que interrompe concepções lineares de tempo e espaço, e imagina rupturas entre o “passado” e o “presente”. O ‘African Mobilities’ examina as possibilidades de intervenções criativas que surgem quando se aplica uma abordagem relacional, de escalas e localizações múltiplas para este espaço-tempo explodido, em que a maioria da migração acontece no continente Africano.

Esta exposição explora também como a liberdade continua a ser uma mercadoria escassa e desigualmente distribuída – e como a liberdade de movimento está a tornar-se cada vez mais a principal estractificadora na ‘longue durée’ da modernidade, colonização e capitalismo neoliberal. Além disso, procura desestabilizar as discussões ocidentais sobre a mobilidade africana e a sua preocupação com o grande número de pessoas de África, Ásia e Europa Oriental que se deslocam para os centros do capital global.

As cidades da Europa e África passaram por uma significativa recalibração dos seus espaços urbanos. As migrações em grande escala de África e de outras partes do mundo subentendem estas recalibrações e, ao mesmo tempo, o estabelecimento de novos regimes de vigilância e controle espacial. Estes são orientados com discursos e regimes de representação que procuram manter os africanos imóveis nos lugares aonde se encontram. As cidades africanas, também, têm sido o foco da especulação sobre as formas actuais e futuras de convulsões políticas, dinâmicas populacionais, novas tipologias arquitectónicas, infra-estruturas e tecnologias. As modalidades de sobrevivência e invenção que caracterizam algumas destas transformações não só desafiam a soberania dos estados, modos de governação e controle, mas também colocam desafios às formas e expressões que as cidades tomarão em África e em outros lugares. Nas cidades africanas, vemos tanto as maquinações de uma ordem capitalista global predatória como as instituições e práticas fragmentadas que abrem caminho para a criatividade emergir. É improvável que os produtos desses esforços capacitem as classes mais baixas e que sirvam linearmente à hegemonia dos poderes actuais.

Essas explorações em andamento resultam em cartografia provisória de poder e desejo. Elas levantam uma série de questões sobre quais narrativas os africanos escolhem para contar (já que a própria história é tão contestada quanto o futuro), como as contamos e como muito do nosso “conhecimento” sobre as cidades e arquitecturas africanas é circunscrito por uma série de interesses políticos enraizados em discursos coloniais hegemónicos. Como uma cartografia das relações sócio-espaciais hegemónicas e das práticas representativas, essa exposição de arquitectura inicia o trabalho de produzir novas práticas alternativas, saberes e sujeitos por meio de uma gama diversificada de práticas espaciais a serviço de uma agenda social emancipatória mais ampla.

A ‘African Mobilities’ é uma exposição condutora de processo e orientada para o futuro, mas pretende oferecer um momento de pausa. É um espaço de atraso e um convite para se envolver e arquivar como os pensadores orientados para a África abordam os imaginários urbanos e os protótipos arquitectónicos que foram instigados por um mundo em movimento. Em vez de nos concentrarmos apenas em mover os corpos, estamos igualmente preocupados com as mobilidades intelectuais – a circulação de idéias através de divisões linguísticas, territoriais e disciplinares. Para o efeito, a exposição foi concebida como um espaço físico, um evento, uma publicação digital e uma plataforma pedagógica móvel. Ela conecta arquitectos e outros profissionais criativos, teóricos e académicos de catorze lugares diferentes, incluindo Joanesburgo, Harare, Kampala, Addis Abeba, Luanda, Abidjan, Lagos, Nova Iorque, Dakar, Nairóbi, Lubumbashi, Praia e Munique. Juntos, esperamos construir um arquivo vivo do pensamento africano contemporâneo que apresente formas alternativas de criar realidades urbanas.

O mapeamento de como os africanos de diversos lugares se imaginam e negoceiam espaços de possibilidades, emergiu como uma forma de cartografia criativa com a qual documentar e produzir a cultura como um arquivo de e para o futuro. Essas explorações preliminares são subversivas, distópicas e esperançosas, e desafiam a ideia de espaço como um recipiente para os processos sociais, trazendo a produção dinâmica e contínua do espaço para uma conversa criativa sobre o futuro das cidades africanas. As diversas ofertas aqui não reivindicam ser abrangentes, nem buscam uma representação exaustiva de todas as formas de mobilidade africana. Em vez disso, eles investigam os múltiplos registros através dos quais os africanos imaginam, analisam e negoceiam seu lugar no mundo de uma forma aberta – apesar das limitações impostas às nossas mobilidades.

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