A “Não Prática” da Arquitectura

Arquitectura é por muitos considerada uma arte e todas as artes têm critérios “pré-definidos” para que possam ser classificadas como tal.

Segundo Vitrúvio, em seu tratado “De Architectura Libri Decem”, define que Arquitectura se baseia em três princípios básicos, Venustas1 (associada à beleza e estética), Firmitas2 (referente à estabilidade e ao carácter construtivo) e Utilitas3 (referente à comodidade, mas ao longo da história foi associada à função e ao utilitarismo); e hoje fala-se também de Loci (referente ao lugar). Sendo assim, arquitectura seria o equilíbrio homólogo entre estas variáveis, e a ausência de uma delas, faria com que um determinado objecto não fosse considerado como tal.

Vitrúvio. Fonte aqui | “De Architectura” por Vitrúvio. Fonte aqui

Em debates “informais” com colegas do ramo de arquitectura, várias vezes se discutiu a “não prática” da arquitectura exercida por parte dos profissionais (angolanos), pela falta de equilíbrio entre os elementos que a definem.

Muito se critica as construções dos “Zangos” e outros, construções em que temos o Estado como promotor; mas cada vez mais surgem projectos singulares e pequenas urbanizações financiadas por promotores privados que muito se assemelham a estas edificações criticadas.

Moradias do Zango III. Fonte aqui
Urbanização Zango 8000. Fonte aqui

Circulando pela cidade de Luanda facilmente encontramos exemplos da “não-prática” da arquitectura. Várias vezes nos deparamos com “novos” edifícios que esteticamente nada acrescentam à boa imagem da cidade, por vezes mal implantados e ocupando espaços destinados a passeios, resultando em desalinhamentos de edificados que com a devida atenção/fiscalização poderiam ser evitados.

Não estamos a produzir arquitectura. As noções de estética, estabilidade e função nos são exigidas a cada trabalho e muita das vezes falhamos ao congregá-las.

Arquitectura requer sensibilidade, na concepção dos espaços criados, na maneira como se resolvem as questões de iluminação e ventilação para os mesmos, na selecção dos materiais a serem empregados, na beleza e estética das formas criadas, deve transmitir emoções, etc; diferente de construções que têm como objectivo definir espaços delimitados por paredes com vãos garantindo a iluminação, ventilação e circulação, sem qualquer outro comprometimento a não ser o de abrigar pessoas. 

…projectar, planear, desenhar, não deverão traduzir-se para o arquitecto na criação de formas vazias de sentido, impostas por capricho da moda ou por capricho de qualquer outra natureza. As formas que ele criará deverão resultar, antes, de um equilíbrio sábio entre a sua visão pessoal e a circunstância que o envolve e para tanto deverá ele conhecê-la, tão intensamente que conhecer e ser se confundem…”

– “Fernando Távora [in “Da Organização do Espaço” (1962)] “

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