“Arquitectura em África como Ciência Primeiro e Arte Depois”: Um texto de Edwin Seda

Hoje, 25 de Maio de 2019, assinala-se mais uma vez o dia de África. A data, instituída pela Organização da Unidade Africana (hoje conhecida como União Africana), em 1963, marca o dia em que vários estados africanos reuniram-se em Adis Abeba, na Etiópia, a fim de defender a integridade territorial e a soberania dos seus vários membros, e promover a unidade entre os vários povos africanos. Em comemoração à data, hoje trazemos um texto do arquitecto e fotógrafo baseado em Joanesburgo, África do Sul, Edwin Seda. O texto, faz uma ponto de situação daquilo que tem sido a prática da arquitectura em África e do ideal que julga passar por um processo que deverá partir de uma abordagem mais experimental, buscando por soluções mais inovadores que depois remetam aos valores da cultura africana. O texto foi publicado originalmente no dia 23 de Junho de 2018 com o título “Architecture in Africa as Science First and Art Second“, “Arquitectura em África como Ciência Primeiro e Arte Depois” em tradução livre.

ZEITZ MOCAA, Cidade do Cabo, África do Sul © Iwan Baan

Segue uma tradução livre do texto:

A ideia de que a arquitectura tem se tornado cada vez mais um catalisador para inovação e mudança científica integral é evidente e prevalece agora mais do que em qualquer outro momento da história da arquitectura. Neste artigo, proponho uma nova maneira de se olhar para a arquitectura contemporânea em África, que, será guiada unicamente pela inovação e avanços científicos, e não pela  actual busca por totens e estilos simplificados que dominam o discurso sobre arquitectura em África, tornando-a uma doutrina de formas paternalista e símbolos.

Há uma revolução cultural afro-futurista a acontecer actualmente no coração de África em concordância com o progresso humano, mesmo com os desafios que o continente enfrenta. O design e a expressão das formas construídas não são, portanto, apenas um caminho de transição intergeracional de uma era de  uma África pré-independências, e sim, uma expressão da identidade africana e  das nossas aspirações culturais enquanto habitantes do continente. É uma amálgama de velhas ordens que fazem parte da cultura existente com morfologias “new age”; o que significa que mais e mais arquitectura deve se tornar sobre inovação, expressando o aspecto articulatório do edifício, e isso então, ligado à identidade cultural da arquitectura.

Joanesburgo, África do Sul. © Edwin Seda

A Arquitetura Africana deve sintetizar a sua própria funcionalidade técnica, identidade visual e desempenho, dentro das funções sociais que projecta para o mundo. No entanto, deve administrar isso de maneira propositada, de uma forma que se conecte para o avanço do discurso e das aspirações no continente. A inovação deve ser mais voltada para a criação de novas competências que então actuem na dualidade como funções de articulação. A arte tem sido uma dependência excessiva da expressão africana. Isso não quer dizer que seja necessariamente algo negativo.

A desconexão manifesta-se aonde o distanciamento desta narrativa cria uma obsessão pelo embelezamento e repertório animado de assimilação visual como os únicos totens da expressão arquitectónica africana, contra expressões apoiadas pelo desenvolvimento de novas engenharias, soluções inovadoras e elementos de mudança que permeiam além da actual expressão da arte e arquitectura em si e criam arenas e espaços para o discurso e pesquisa futura.

A arquitectura a nível mundial criou movimentos como a Bauhaus, que exploraram sistemas económicos, políticos e científicos, e incorporaram todas essas linguagens tácteis na arquitetura, mais do que na verdade a parte visual. A ideia é libertar os edifícios de serem meros artefactos estéticos e passar para novas abordagens que explorem a morfologia de explicações testáveis. É assim que a cultura e a identidade devem ser expressas no design. É a única maneira pela qual o discurso pode ser reproduzível.

É tomando literalmente a arquitectura como um experimento, explorando como a cultura pode ser abstraída em uma nova fachada inovadora, por exemplo, como um material pode ser levado adiante para desdobrá-lo das suas aplicações pré-concebidos e criar algo novo, como o espaço pode ser deslocado, dobrado, deformado ou simplesmente solto para se ligar aos costumes sociais que nos são familiares.

Kigali, Ruanda. © Edwin Seda

A experimentação é muito importante na arquitectura, pois determina as relações causais, cria novas soluções e desafia o ‘status quos’. O seu propósito não é necessariamente criar algo diferente ou aprovar/contestar, mas sim para o avançar de uma teoria e criar novos fluxos de conhecimento.

Aqui estamos a olhar para a forma como a arquitectura e o ambiente construído, essencialmente a praticidade do físico, podem ser sistemáticas. E como a arquitectura em África é essencialmente uma criança, um produto em crescimento que começa agora a dar os seus primeiros passos, mas que conseguiu se estabelecer mais no discurso teórico tradicional do que no real desenvolvimento socioeconómico e tecnológico/material.

Há a necessidade de pesquisa e desenvolvimento, auto-candura intransigente e especialização flexível. E enquanto o paradoxo é que, para sermos capazes de inovar efectivamente, devemos sempre voltar à arte e à cultura que trouxeram àquele ponto, o caminho da arquitectura como ciência primeiro deve primeiro exaltar principalmente a cultura dentro do reino da ciência ao invés de apadrinha-las com expressões simples e sedutoras, mas vazias.

Um feliz dia de África a todos!

 

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