Bienal de Arte de Veneza 2019: David Adjaye projecta Pavilhão do Gana

No passado dia 11 de Maio do corrente ano, iniciou a 58ª edição da Bienal de Arte de Veneza, com o tema  “May You Live In Interesting Times” (“Que Possas Viver em Tempos Interessantes” em tradução directa), este ano com a curadoria do britânico Ralph Rugoff, director da Hayward Gallery (Londres, Inglaterra). Esta exposição internacional, que estará aberta ao público até 24 de Novembro, tem como objectivo a pesquisa, promoção e divulgação das novas tendências de arte contemporânea, organizando exposições e eventos nos sectores das Artes (desde 1895), Música (desde 1930), Cinema (desde 1932), Teatro (desde 1934), Arquitectura (desde 1980) e Dança (desde 1999).

Capa da Brochura da 58ª Edição da Bienal de Arte de Veneza. Fonte aqui.

Este ano, o evento conta a participação de 87 países, dos quais 7 são Africanos. Contudo, e apesar de ter participado nas últimas edições, tendo arrecadado o Leão de Ouro na edição de estreia em 2013, Angola está ausente do pequeno grupo, onde consta o Egipto, África do Sul, Costa do Marfim, Moçambique, Seychelles, Zimbabwe e o estreante Gana.

Logotipo do Pavilhão do Gana. Fonte aqui.

É também pela arquitectura que se destaca a estreia do Gana na Bienal de Arte de Veneza deste ano, sendo que o seu pavilhão foi desenhado pelo aclamado arquitecto de origem Ganesa, David Adjaye. Sendo conhecido principalmente pelo seu trabalho no Reino Unido e, mais recentemente, nos Estados Unidos da América, Adjaye tem já alguns trabalhos no seu país natal, sendo a Catedral Nacional do Gana o mais recente.

Projecção do filme “Arte é um diálogo” de John Akomfrah. © David Levene

Por ser estreante, o Pavilhão do Gana tem sido dos mais procurados entre os visitantes da Exposição internacional. Os espaços elípticos interligados e o revestimento a terra do pavilhão, com o nome Ghana Freedom (“Liberdade Ganesa” em tradução directa), evocam as construções circulares em terra, da arquitectura vernacular Ganesa, mais especificamente dos Gurunsi (grupo étnico do norte do país), onde Adjaye tenta transportar, também através dos materiais, as cores e texturas do Gana para Veneza, reforçado pela exposição que recai sobre a história, herança e cultura do país, com a curadoria de Nana Oforiatta Ayim.

“Retratos e Auto-retratos” de Felicia Abban. © David Levene
“Uma linha reta através da carcaça da história” de Ibrahim Mahama © David Levene
Pinturas de Lynette Yiadom-Boakye. © David Levene
“Uma linha reta através da carcaça da história” de Ibrahim Mahama © David Levene
“Yaw Berko” de El Anatsui. © David Levene
“Abertura do tempo” de El Anatsui. © David Levene
Esquisso da planta do pavilhão © Adjaye Associates
Capa de apresentação do Catalogo do Pavilhão. Fonte aqui.

Deixamos aqui a breve apresentação de cada um dos pavilhões africanos da edição 2019 da Bienal de Veneza, retiradas do site oficial da organização:

GANA –  Ghana Freedom

Comissionário: Ministério do Turismo, Artes e Cultura
Curadoria: Nana Oforiatta Ayim.
Exposição: Felicia Abban, John Akomfrah, El Anatsui, Lynette Yiadom Boakye Ibrahim Mahama, Selasi Awusi Sosu.

Intitulado Ghana Freedom, após a música composta por E.T. Mensah na véspera do nascimento da nova nação em 1957, o pavilhão com curadoria de Nana Oforiatta Ayim examina os legados e trajectórias dessa liberdade por seis artistas, através de três gerações, enraizadas no Gana e nas suas diásporas: através de arquivos de objectos em instalações de grande escala de El Anatsui e Ibrahim Mahama; representação e retrato, ambos no trabalho de estúdio da primeira fotógrafa feminina conhecida do Gana, Felicia Abban, pensado pela pintora Lynette Yiadom-Boakye; as relatividades da perda e restituição num filme de três canais de John Akomfrah; e, finalmente, numa escultura de filme de Selasi Awusi Sosu. O design elíptico do pavilhão de Sir David Adjaye explora a interseção de idéias que ligam as obras.”

EGIPTO – khnum across times witness.

Comissionário: Ministry of Culture.
Curadoria: Ahmed Chiha.
Exposição:  Islam Abdullah, Ahmed Chiha, Ahmed Abdel Karim

Que possas viver em tempos interessantes enquanto vivemos nosso presente enquanto procuramos a essência dos tempos passados. Na nossa procura, encontramos pessoas que viveram e coexistiram pacificamente. A sua civilização ligava a Terra ao Céu, o que lhes ensinava paciência, sabedoria e contemplação. Essa civilização ensinou-lhes os segredos de todos os campos do conhecimento, medicina, engenharia, mumificação e astronomia. A profundidade do passado enviou-nos um mensageiro para narrar o que foi testemunhado durante aquela longa jornada. O mensageiro que foi enviado é Khnum, o guarda de confiança dos segredos do templo e narrador da história. Quando Khnum chama, apenas o sábio contemplado pode ouvir as chamadas. Quando ouvimos a sua voz, vemos o rosto que reflecte o que foi experimentado e visto na estrada movimentada que ele observa.”

Costa do Marfim – The Open Shadows of Memory

Comissionário: Henri Nkoumo.
Curadoria: Massimo Scaringella.
Exposição: Ernest Dükü, Ananias Leki Dago, Valérie Oka, Tong Yanrunan.

As Sombras Abertas da Memória falam-nos da Terra-Mãe como uma colecção das memórias da humanidade. Um lugar onde as metáforas para as obras de Ernest Dükü são um espelho que permite ao espectador enfrentar as questões do seu mundo articulado.
Ananias Léki Dago passeia a sua câmara fotográfica pelas estradas africanas. A sua obra fala do esquecimento e das aspirações controversas das novas gerações africanas.
Valérie Oka narra os heróis esquecidos da sua terra e das belezas de África, ressaltando as imagens com pinceladas desenhadas à mão.
Tong Yanrunan usa os seus retratos pictóricos que vão além do realismo para desvendar a memória da humanidade sem revelar sentimentos e diferenças sociais, deixando os espectadores livres para conhecer o seu próprio “alter ego”.”

MOÇAMBIQUE – The Past, the Present and The in Between (“O passado, o presente e o entre”)

Comissionário: Domingos do Rosário Artur.
Curadoria: Lidija K. Khachatourian.
Exposição: Gonçalo Mabunda, Mauro Pinto, Filipe Branquinho.

O pavilhão tem como objetivo mostrar, a partir de uma perspectiva contemporânea, o passado conturbado desta nação e as suas influências na sociedade actual. Utilizando diversos meios, Gonçalo Mabunda, Mauro Pinto e Filipe Branquinho trazem para esta exposição uma conversa dialógica sobre violência, corrupção e injustiça social. Tendo crescido durante o período pós-colonial, quando seu país foi engolfado numa longa guerra civil, os artistas investigam a política contemporânea e a cultura popular, sustentados por um sotaque poético e às vezes bem-humorado. Atentos ao que acontece à sua volta, bem como às dimensões mais profundas da experiência humana, o trabalho fala aos nossos sentimentos mais empáticos.”

SEYCHELLES – Drift

Comissionário: Galen Bresson.
Curadoria: Martin Kennedy.
Exposição: George Camille and Daniel Dodin.

Drift convida-o a considerar uma série de componentes visuais e auditivos sintetizados que podemos considerar colectivamente como perguntas: Como sabemos o que sabemos ?, Onde está a verdade ?, Alguma coisa pode estar simultaneamente errada e certa? Somos incapazes de determinar (ou até mesmo reconhecer) a realidade? A vida é melhor agora do que (escolha a sua) anteriormente? Dois artistas, George Camille e Daniel Dodin, compartilham os seus conceitos através de duas instalações separadas, mas complementares. Juntos, eles dizem-nos coisas que talvez já saibamos, mas que decidimos ignorar. Coisas que apontam os dedos duvidosos ao nosso senso de individualidade e autodeterminação. “Auto-ilusão, em vez disso…” eles parecem sussurrar.”

ÁFRICA DO SUL – The stronger we become.

Comissionário: Titi Nxumalo, Console Generale.
Curadoria: Nkule Mabaso, Nomusa Makhubu.
Exposição: Dineo Seshee Bopape, Tracey Rose, Mawande Ka Zenzile.

Esta exposição procura apresentar um discurso visual multifacetado sobre a resiliência social. O título capta a natureza anti-frágil do espírito da África do Sul e a resiliência do seu povo, bem como os seus sistemas político e económico. Dineo Seshee Bopape, Tracey Rose e Mawande Ka Zenzile foram especificamente selecionados para elaborar uma visão em que o espírito do momento sócio-político na África do Sul hoje não é apenas apresentado, mas revelado pela sua natureza profundamente dialógica. As práticas colectivas dos artistas geram conversas que podem possibilitar formas de pensar criticamente sobre o lugar de onde viemos, como nação, onde estamos e para onde vamos. A exposição pretende apresentar as formas pelas quais os artistas mostram resiliência e resistência como correlativos.”

ZIMBABWE – Soko Risina Musoro (“O Conto Sem Cabeça”).

Comissionário: Doreen Sibanda, National Gallery of Zimbabwe.
Curadoria: Raphael Chikukwa.
Exposição: Georgina Maxim, Neville Starling, Cosmas Shiridzinomwa, Kudzanai Violet Hwami.

Esta exposição para a Bienal Arte 2019 fala das histórias actuais e da experiência humana em todo o mundo. Resolução de conflitos tornou-se Soko Risina Musoro (o conto sem cabeça), e ainda existem desde tempos imemoriais. Conflitos são um perigo para o desenvolvimento humano e os conflitos surgem de formas diferentes, pois afectam o desenvolvimento humano. É por isso que o mundo está desordenado hoje. O papel e função da arte contemporânea é, portanto, aproximar o diálogo das pátrias.”

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