Chamada S.O.S para a Reabilitação Urbana: Um Texto de Edla Taís Galiano

Para esta edição do “Teoria de”, trazemos um artigo de Edla Taís Galiano, ex-estagiária de Comunicação na UN-Habitat (Quénia), Bacharel em Urbanismo pela Universidade de Montreal (Canadá) e Líder em Cidades Inteligentes e Mobilidade na Acelera Angola. O texto intitulado “Chamada S.O.S para a Reabilitação Urbana”, foi publicado originalmente no dia 3 de Dezembro de 2018, no seu blog pessoal chamado “Crônicas Urbanas de uma Luandense“, onde periodicamente divulga os seus ensaios.

Segue o texto na integra extraído do seu blog:

A chamada do S.O.S para reabilitação urbana foi finalmente formalizada pelas autoridades Luandenses. Com um novo programa de reabilitação urbana denominado “Luanda Verde 2022”, o Governo Provincial de Luanda reconheceu e está a tomar medidas sobre as questões de reabilitação da capital. E já não era sem tempo!!

Baixa de Luanda, 2018. © Edla Taís Galiano

As cidades são “seres” em evolução, tanto o crescimento urbano como a decadência urbana são duas dinâmicas inegáveis, e que podem afetar diferentes áreas da mesma cidade. Ambas dinâmicas são causadas por efeitos de uma mudança sócio-política ou econômica na sociedade (não se preocupem, tenho um tópico preparado para abordar as raízes das dinâmicas nas cidades).

Mas todo fenómeno tem um ponto de partida, e o centro da cidade é o epicentro do fenómeno da urbanização, fazendo dele o local mais antigo das cidades além de ser um lugar de excelência para o intercâmbio. É onde se encontram as instituições financeiras e políticas, empresas e comércios, centros de lazer e atividades culturais, o verdadeiro coração da cidade.

Baixa de Luanda I. © Edla Taís Galiano

O centro da cidade de Luanda, como a maioria dos centros das cidades, está repleto de história e de construções patrimoniais. No entanto, ao contrário da maioria, o nosso centro não estava a explorar todo o seu potencial. Houve uma decadência não apenas nas infraestruturas, mas também nas suas atividades. As estruturas foram se tornando obsoletas, e nós ficamos confortáveis ​​em demolir o antigo e construir o novo pois era mais rentável. Em consequência, este novo tipo de empreendimento custoso que se desenvolve no centro da cidade responde maioritariamente as necessidades do setor terciário.

Os comércios locais estão se mantendo, alguns abandonados, mas todos sem estrutura, sem falar do custo de vida exorbitante nas construções residências. A falta de harmonia e coerência entre o novo e o antigo faz do nosso centro da cidade um lugar caótico. Esta linha de desenvolvimento se não for gerida só favorecerá a segregação das atividades e a segregação socio-espacial.

Então, o que é reabilitação urbana? E como é que esta pode dar à Luanda um centro histórico adequado?

A reabilitação urbana é consciência e simbolismo: o caso da Campanha Reviver

No meu último post mencionei a Campanha Reviver da Associação Kalu e do Centro de Investigação Científica de Arquitectura (CEICA), e como esta campanha é especial. Este projecto é sobre a conservação do património na Baixa de Luanda, tudo isso através da sensibilização e educação sobre a nossa herança Colonial e Escrava. Esta campanha completou 10 anos de existência no dia 23 de agosto, dia da Abolição do Comércio de Escravos. Poderia ser mais simbólico do que isso? Duvido.

Eles organizam passeios ou os chamados “safáris urbanos”, com rotas Colonial e Escrava. Estas idéias surpreendentes são cruciais, agora mais do que nunca pois há uma necessidade urgente de investirmos em atividades e setores mais sustentáveis como o turismo.

Monumentos históricos são necessários para manter a identidade, a essência e a “alma” das cidades, precisamos preservar e melhorar estas construções para permitir o que eu chamo de “viagem no tempo”. O que as pessoas (turistas) procuram numa cidade é uma história que só esta pode contar.A Campanha Reviver mostra que….

“a reabilitação urbana, não é só física, ela é simbólica e educativa, é um trabalho inicial de consciencialização e de valorização cultural.”
É também sobre estrutura e estética: o programa Luanda Verde 2022

O programa “Luanda Verde 2022” foi lançado em Agosto de 2018 e durará 4 anos. Este tem 6 objetivos e acredito que todos eles contribuirão para questões de habitabilidade que devem passar por transformações estruturais e estéticas, como:

1. Segurança (Objetivos 1, 2 e 5): Sistemas de energia, iluminação e exploração da sinalética comercial na cidade: este tipo de instrumentos aumentam definitivamente o sentimento de segurança, estes estão prestes a serem instalados e atualizados na cidade. Embora eu acredite que os olhos do povo, como ja dizia Jane Jacobs, são o que realmente podem favorecer um ambiente de segurança. No caso do objetivo 5, é então sublinhada a questão da segurança nos mercados informais, onde o fluxo de pessoas deve ser canalizado e configurado.

2. Mobilidade (Objetivo 2 e 6): Os instrumentos acima mencionados irão aumentar os indicadores de mobilidade, pois a segurança é um critério necessário para se medir uma boa mobilidade. Nos novos instrumentos também iremos adquirir um sistema de estacionamento (que poderá trazer receitas para os municípios e ajudá-los a manter essas novas infraestruturas). Luanda tornou-se uma cidade muito dependente ao automóvel e os peões e as suas respectivas pistas de circulação foram postos de lado. Os passeios, tal como as estradas também serão restruturados. Finalmente, o número 6 aborda esta preocupação para pessoas com mobilidade reduzida.

Trabalhos de reabilitação dos passeios, Baixa de Luanda, 2018. © Edla Taís Galiano

3. Higiene (Objetivos 1,3 e 5): A distribuição de água limpa está no topo das prioridades, sem esta não poderemos alcançar um nível mais alto de higiene nos mercados municipais mencionados no objetivo 5. E no final, o que precisamos é de uma Luanda mais limpa, edifícios limpos por dentro e por fora (como mencionado no objectivo 3), ruas mais limpas, mercados públicos e o espaço público geral. O novo modelo de limpeza e gestão de resíduos sólidos nos ajudará a alcançar este objetivo.

Catambor, 2017. © Edla Taís Galiano

4. Cultura (Objetivos 2 e 4): Usando o slogan “Dê cor à sua vida. Dê cor à sua comunidade”, podemos concluir que este programa é um verdadeiro projeto de reabilitação urbana que visa à uma verdadeira revitalização de nossos assentamentos humanos. No final, todos queremos que Luanda seja uma cidade dinâmica e cheia de vitalidade. E os espaços públicos são um verdadeiro vetor de vínculos sociais e culturais, como os espaços verdes que que serão revitalizados, mencionados no objetivo 2. Por fim, o objetivo 4 destaca a necessidade de valorização de nosso patrimônio, e agora você já deve saber como essa parte é importante para a cultura e mesmo para economia.

A reabilitação urbana é fusão: antigo e novo, é uma estrutura com consciência
#cocktailurbano

Baixa de Luanda II. © Edla Taís Galiano

Campanha Reviver e Luanda Verde 2022: dois projetos geridos por duas entidades distintas, com recursos diferentes, mas que trabalham para o mesmo objetivo.

  • O Governo Provincial de Luanda: uma autoridade e instituição local, responsável pela implementação de mudanças estruturais em reabilitação urbana, que conta com a parceria de outras instituições como o Ministério da Construção e das Obras Públicas. As ferramentas ou recursos que eles devem usar são: regulamentos e leis como o zoneamento, que devem ser aplicados não apenas para dar um aspecto melhor à cidade, mas também trazer uma nova dinâmica com um cocktail de atividades de forma coordenada . A sua equipe deve ser formada por urbanistas, arquitetos, paisagistas, engenheiros, trabalhadores da construção civil, jardineiros, etc.

  • A Associação Kalu e o CEICA, duas instituições não-governamentais, e que usam a educação como recurso. Sua equipe é formada por arquitetos, estudantes, mães, pais, cidadãos de Luanda, turistas, enfim, todos os interessados ​​no nosso patrimônio e na nossa História.

Estes são exemplos perfeitos de como é importante ter todas as partes interessadas a desempenharem seu papel, mas principalmente de como é fundamental ter o governo na linha da frente, a ditar regras claras do jogo. Pois eles são os únicos que podem implementar em 4 anos o que instituições não governamentais, por vezes, não conseguem em 10 anos.

“Então, trabalhemos juntos para criar uma visão comum do planeamento urbano, que respeite as nossas origens e o nosso passado, e que abra as portas para um desenvolvimento sustentável.”

Caso queira ver publicado na nossa plataforma um artigo ou trabalho seu, envie-o para o geral@thesanzala.com.

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