Teoria de Yara Cristina Nunes de Andrade: “As transformações urbanas e o papel das grandes infra-estruturas/polos industriais na evolução da cidade de Luanda” e “Sines_habitar o percurso: centro de Estágio para apoio desportivo”

Para esta edição do “Teoria de“, trazemos a dissertação de mestrado da arquitecta angolana Yara Cristina Nunes de Andrade, intitulada “As transformações urbanas e o papel das grandes infra-estruturas/polos industriais na evolução da cidade de Luanda” e “Sines_habitar o percurso: centro de Estágio para apoio desportivo”, desenvolvida no Instituto Universitário de Lisboa (Portugal), que teve como orientadores a Prof. Doutora Arqta Ana Vaz Milheiro e o Prof. Doutor Arqto Pedro Pinto. Deixamos aqui um pequeno trecho da dissertação para vossa leitura:

Baia de Luanda. Fonte aqui

Ao longo da história do crescimento das cidades, factores impulsionadores de desenvolvimento, como a indústria, a implementação de redes ferroviárias e viárias, a localização de estruturas como portos e aeroportos, entre outros, condicionam essa mesma evolução.

Luanda não foge à regra, sendo uma cidade portuária, voltada para o mar e com ligação para terra. Desde cedo foi alvo de cobiça e conquista dos colonizadores. Desenvolveu-se sobre a sua orla marítima, e teve desde sempre o comércio e o mar como forma de atractivo, que levou a que logo cedo ganhasse uma estrutura urbana. Nessa estrutura era clara a divisão entre a cidade alta (mais organizada da cidade) e cidade baixa (área em que dominavam as actividades económicas).

A cidade crescia, assim como os seus problemas. Tornava-se urgente a sua modernização, pois com a independência do Brasil, Angola passaria a principal colónia Portuguesa. Neste quadro, acções associadas a ideias de progresso começam a ter forma. Actividades comerciais ligadas à importação e exportação de produtos, necessidades em transportar a população com maior rapidez, etc., reflectem-se na introdução de meios de transporte, caso Expressivo dos caminhos-de-ferro, que numa primeira fase circulava apenas por Luanda, e posteriormente chegou a província de Malanje.

A indústria também acompanhou este processo, consequentemente a cidade crescia, e a afluência de pessoas era cada vez maior. O que potencializava o crescimento de bairros com poucas condições de habitabilidade, agravando de uma maneira geral a imagem e a estrutura da cidade, e colocando em causa o crescimento urbano de Luanda sobre bases sólidas.

Sobre a mesma surgiu o porto, o aeroporto, e vias estruturantes que asseguravam a ligação da cidade a outros pontos do país.

Era a modernidade que chegava pelos desígnios da indústria. Porém, com a indústria não chegou apenas modernidade, chegaram também formas de instalação mais precárias como os musseques que marcavam o outro quadro que a cidade vivia. Uma realidade não tão bela, nem tão aprazível, Era a realidade de Luanda que se escondia atrás de prédios altos, de bairros luxuosos, e acoplando, de forma quase iníqua, as grandes infra-estruturam que aqui estudamos.

E viu-se ao longo do tempo o crescer e o prolongar desses musseques, acompanhando a linha férrea, as principais vias a cidade, junto ao porto e ao aeroporto da cidade. É a presença destas infra-estruturas em ambiente urbano que propomos aqui analisar.

Yara Andrade, Lisboa, 2016 (resumo da dissertação)

Baia de Luanda I. Fonte aqui

Não foi o musseque que surgiu na cidade, foi a cidade que se impôs sobre o musseque. Luanda não era moderna, nem Europeia, Luanda era do mato, das ruas empoeiradas, do povo do pé descalço, do pescador da baia, do agricultor do fundo do quintal. Luanda não era esbelta com prédios enormes, era cubata, era savana, era reunião em noites de luar sobre ruas inexistentes. Luanda não era progresso, nem industria, era a riqueza de um povo humilde, de uma cidade acolhedora, de um comércio de boa vizinhança. Luanda não era, asfalto, não tinha electricidade, nem água abundante. Era terra batida, era tambores uivantes, e caçadores andantes. Era de dia que se vivia, e nas noites que se imbuíam.

Não foi o musseque que surgiu na cidade, foi Luanda que se deu a Luanda. Pois o passado do seu povo, das suas raízes, do seu modo de viver, embora em alguns casos erróneo, que nunca se perdeu ao longo do tempo, entre a industria, entre a urbanização, entre edifícios modernos que se escancaravam sobre a moldura composta de uma cidade que se anunciava.

E Luanda cresceu, linda sobre o mar, com grandes avenidas, e as grandes infra-estruturas marcada sobre a mesma, era o progresso que se anunciava, entre um edifício novo, e a construção de uma nova estrada.

O percurso histórico retratado nesse trabalho, sobre a sobreposição de plantas, análises de varias fotografias, e alguns estudos de planos de urbanização da cidade de Luanda, nos mostra sobre várias análises, num espaço temporal de quase cem anos, (década de 80 do séc. XIX, a década de 70 do séc. XX) o quanto Luanda cresceu, e como cresceu. Foi possível perceber que o crescimento da mesma sempre foi agregado a existência de um factor que a levava a desenvolver. E esse tipo de acontecimento era comum aos dois tipo de crescimento a que Luanda viu sobre o seu território. O primeiro, o de uma cidade que se pretendia moderna, e acolhedora para os seus. E uma segunda que crescia a espreita dessa nova cidade que mostrava o rosto de Luanda.

Yara Andrade, Lisboa, 2016 (um trecho da conclusão da dissertação)

Para ler a obra na íntegra, deixamos aqui o link para download e/ou leitura da dissertação. Caso queira ver publicado na nossa plataforma um artigo ou trabalho seu, envie-o para o geral@thesanzala.com.

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