“A importância do ensino da arquitectura vernacular africana nas faculdades de arquitectura em África”: Um texto de Áurea Bianca Vasconcelos André

Para esta edição do “Teoria de”, trazemos um artigo de Áurea Bianca Vasconcelos André, licenciada em Arquitectura e Urbanismo pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP-EC), Brasil; formada em Sistemas para Internet, pela mesma instituição; mestranda em Arquitectura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil; e membro/pesquisadora júnior do grupo de investigação “Estudos Urbanos, Cultura e Arquitectura” da PUC – Campinas, Brasil. O texto, intitulado “A importância do ensino da arquitectura vernacular africana nas faculdades de arquitectura em África”, foi disponibilizado pela arquitecta à plataforma The Sanzala.

Escola Secundária Lycee Schorge em Koudougou, Burkina Faso. Fonte aqui

Segue o texto para vossa leitura:

Nas últimas décadas, África e o mundo têm vivenciado o renascimento e a valorização da cultura africana em diversas áreas como o cinema, música, arte, culinária e moda. Entretanto, essa valorização não acontece com arquitetura africana, que se limita a construções rurais ou a lodges turísticos que servem de entretenimento aos ocidentais que procuram viver uma experiência africana.

A arquitetura vernacular faz uso de materiais, técnicas e costumes locais na sua edificação. Um dos motivos que leva à desvalorização da mesma foi a negligência do colonizador ao desconsiderar a arquitetura africana já existente no período pré-colonial, edificando então em suas colónias construções com materiais europeus, impedindo a expansão da arquitetura vernacular e a evolução da mesma.

O processo de colonização resultou na crença de que a arquitectura vernacular africana é temporária, de baixa qualidade, retrógrada e de pouca resistência e por outro lado a arquitectura ocidental é vista como moderna, luxuosa e resistente. Actualmente consideramos as fachadas de ferro, betão e vidro como arquitetura de alta qualidade e o adobe, palha ou e o pau a pique como elementos de uma arquitetura de baixa qualidade.

As técnicas de construção africanas são passadas de forma oral como os hábitos e costumes. Actualmente existem poucas fontes de informação e documentos sobre o tema e as faculdades de arquitectura em África têm uma responsabilidade na salvaguarda do conhecimento da arquitectura tradicional africana, contribuindo assim para a preservação da identidade do povo.

O continente africano é multicultural e hospeda diversas tribos, estas possuem características arquitectónicas e métodos de construção peculiares tornando-a num vasto campo para estudos científicos serem desenvolvidos. O assunto por muito tempo foi subestimado, ignorado ou mal documentado. Infelizmente a maioria das faculdades de arquitetura em África não ensinam sobre arquitetura africana em seus programas, outras fazem pouco caso do assunto e não incentivam os alunos a desenvolverem projectos com características afrocentricas.

As características da arquitectura vernacular africana, suas técnicas de construção e seus materiais devem ser abordados nos planos de ensino das faculdades. A inserção de disciplinas com ementas a fim de introduzir a arquitectura vernacular africana ensinando sua história, técnicas, materiais e dinâmica espacial deve ser tratada de forma urgente nas academias africanas. O uso das linguagens arquitectónicas ancestrais juntamente com a tecnologia actual será um contributo a arquitectura africana contemporânea.

Estima-se que em 2050, 2.5 bilhões de pessoas viverão em África[1], este aumento populacional implica demandas no aumento de moradias, escolas e hospitais. O continente precisará de soluções sustentáveis e coerentes ao nosso contexto cultural, ao invés de soluções que transformarão as cidades africanas em réplicas de cidades orientais. O começo para alcançar essas demandas começa pelas universidades, é importante estudar sobre Bauhaus, Walter Gropius, Mies van der Rohe e outros, contudo é da mesma forma importante que a próxima geração de arquitectos africanos tenham Francis Kéré, Kunlé Adeyemi, Olajumoke Adenowo, Mariam Kamara e outros arquitectos africanos como referência.

Grande Mesquita em Djenné, Mali. Fonte aqui

O incentivo à arquitectura vernacular irá contribuir para a produção de massa de materiais locais, desincentiva a importação de materiais de construção ocidentais que muitas vezes não vão de acordo com o clima local, à sustentabilidade, a qualidade de vida local e a preservação da cultural como é o caso do povo Dogon, que tem a sua cultura e história incorporadas em seu conhecimento espacial e nas suas construções. A arquitectura é uma fonte de preservação cultural e entendimento histórico para os Dogons.

Técnicas de arquitetura vernacular – restauração dos celeiros na região dos Dongons, Mali. Fonte aqui

Arquitetura vernacular africana nos ensina técnicas e meios sustentáveis de lidar com a realidade do continente que não devem ser ignoradas pelas faculdades de arquitectura. Estudos amplos na área são de mais valia para a próxima geração de arquitectos africanos que pretendem desenvolver soluções sustentáveis e regionalistas.

“A arquitectura do lugar deve ser mais importante do que a arquitectura do tempo.“ – Gunnar Asplund

Caso queira ver publicado na nossa plataforma um artigo ou trabalho seu, envie-o para o geral@thesanzala.com.

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