Entrevista de Celestino Chitonho ao Jornal de Angola: “Vamos colocar a arquitectura ao serviço da economia”

No passado dia 24 de Setembro, do corrente ano o Jornal de Angola publicou uma entrevista com o actual presidente da Ordem dos Arquitectos de Angola (OAA), o arquitecto Celestino Evoyo Valentim Chitonho. A entrevista desenvolveu-se à volta de questões sobre o exercício da profissão do arquitecto angolano; estágios para recém-formados; orçamentos para a elaboração de projectos de arquitectura; a qualidade dos arquitectos nacionais; a construção de novas centralidades pelo país; políticas públicas de arquitectura; aderência dos associados da ordem ao Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI); e outros.

Presidente da Ordem dos Arquitectos de Angola, Celestino Chitonho. Fonte aqui; editada por The Sanzala

Segue o texto original de Adérito Veloso, extraído na íntegra do site do Jornal de Angola:

Que avaliação faz da actividade dos arquitectos no mercado nacional?
Estamos actualmente a fazer este diagnóstico, posteriormente evoluir para políticas públicas e depois separar o trigo do joio. A actividade dos arquitectos em qualquer parte do mundo é visível no território. Como estamos numa fase onde não só arquitectos legais estão a intervir no território, ainda não se pode fazer esta avaliação.

Quais são os principais constrangimentos?
Constrangimentos são muitos. Não é possível abordá-los todos. Vão desde a contratação de projectos e actos do exercício da profissão a técnicos não inscritos na Ordem, mesmo por parte da administração pública. E em muitos casos nem sequer possuem formação em arquitectura. Esta atitude depois reflecte-se no território e na qualidade do espaço construído. Falta de cultura para a realização de concursos públicos de projectos. Este aspecto já seria um meio para a melhoria da qualidade dos projectos. Falta bastante legislação para o sector. Ainda temos de criar muitas normas e regulamentos tendo em conta a nossa realidade. A crise afectou bastante o sector da Construção e em consequência o da Arquitectura. Estão muitos arquitectos sem trabalho e é uma situação que nos preocupa bastante.

O mercado angolano tem muitos profissionais fantasmas?
Infelizmente sim. Mas esta questão faz parte das nossas prioridades e está a ser resolvida. Os que insistirem em exercer ilegalmente serão entregues à Justiça. A lei consagra o exercício ilegal como crime e consequentemente punível criminalmente.

Que políticas a Ordem está a desenvolver para incentivar os escritórios ou gabinetes dos arquitectos a enquadrar a nova vaga de jovens que entram para o mercado sem experiência?
Já lançamos o repto para o empreendedorismo a nível da arquitectura. Temos noção que não basta. As escolas não ensinam como criar um gabinete de arquitectura, nem como vender serviços.A Ordem deverá, nos próximos tempos, apresentar o seu plano de formação contínua, onde esta temática deve fazer parte. O estágio também deverá ajudar, mas é necessário regulamentá-los e potenciar os gabinetes que vão receber estagiários.

Existem estágios para os recém-formados?
Neste momento ainda não. Vamos começar agora com exames de acesso e posteriormente evoluir para estágios. Estamos a constatar, junto dos gabinetes de arquitectura, as condições existentes para o efeito.

Já há a cultura das empresas ou particulares recorrerem aos serviços dos arquitectos para desenvolverem os seus projectos?
Já tem acontecido, mas ainda é pouco. Será necessário criar a cultura de olhar para a arquitectura de modo diferente. Temos mesmo de “Educar para a Arquitectura”. Para isso, o papel pedagógico dos próprios arquitectos será de extrema importância, mas a administração pública também não pode ficar de parte.

Quanto custa a concepção de uma casa normal de uma família angolana, que na prática é constituída por pelo menos cinco membros (pessoas)?
Tudo depende do tamanho da habitação e do padrão. Se é baixa, média ou alta renda. Do ponto de vista da legislação existente, à qual podemos afirmar que está desactualizada, pois que já vem da era colonial, o preço de um projecto completo de arquitectura e as diferentes especialidades ou engenharias, tem uma relação directa com o custo de construção. O valor pode chegar até dez por cento do valor da obra. Uma habitação em que o valor de construção chega aos cinquenta milhões de kwanzas, o custo do projecto pode chegar aos cinco milhões. Isto segundo o Decreto denominado Instruções para o Cálculo de Honorários de Obras Públicas. Estamos neste momento a reflectir numa base para a definição do custo mínimo de um projecto, tendo em conta a nossa realidade.

Para um edifício para albergar escritórios?
Em princípio segue a mesma lógica.

Os projectos idealizados pelos arquitectos nacionais são de qualidade?
Temos estado a acompanhar arquitectos nacionais com muito boa qualidade. Felizmente existem, precisamos promovê-los e divulgar o seu trabalho. Na arquitectura, quanto mais trabalho um arquitecto faz, mais experiência ganha e com ela aumenta a qualidade do seu trabalho. O nosso Executivo ainda tem tempo de não voltar a entregar as encomendas de projectos aos estrangeiros em detrimento dos nacionais. No mínimo que se promovam concursos. É como no desporto: quanto mais se joga, mais o nível aumenta.

O arquitecto angolano ganha mal?
Esta questão é profunda. Precisamos criar legislação sobre custos e honorários olhando para a nossa realidade. Por outro lado, a boa construção só existe quando existe um bom projecto. Quem percebe o papel do arquitecto, normalmente tende a pagá-lo de modo justo. Quem não percebe, simplesmente paga qualquer coisa. É um processo. Normalmente temos dito que o trabalho do arquitecto não tem preço, tem valor!

Como é que encara o desenvolvimento das novas cidades ou centralidades que estão a ser construídas?
Sobre este assunto existe muito a dizer. Quando começou o processo de construção destas novas “cidades”, estávamos num contexto de emergência habitacional. Hoje, o contexto mudou e não podemos usar a mesma receita. Estamos ainda com um déficit de estudos sobre a nossa realidade. Penso que as primeiras centralidades e já habitadas, deveriam servir de laboratórios de pesquisa, visando melhorar o que está ou poderia ser feito hoje em termos de concepção, tanto do ponto de vista urbano, como na arquitectura ligada aos modelos habitacionais. Enquanto país, penso que estamos a perder muitas oportunidades de colocar os nossos quadros ao serviço do desenvolvimento da nação.

A nova tendência arquitectónica é muito diferente da dos anos antes da independência. Como é que encara, em termos arquitectónicos, os novos edifícios que estão a nascer, por exemplo, na baixa de Luanda ou na orla marítima?
Cada época tem as suas características específicas. Existe também o surgimento de novos conceitos e de novos materiais de construção, que podem criar diferenças substanciais na forma dos edifícios. Estamos numa época contemporânea, alguns defendem que já é pós-contemporânea e temos à mão recursos que não existiam no período antes da independência, altura em que muitos dos edifícios foram feitos na baixa da cidade.
Existem aspectos na arquitectura que considero imutáveis, a resposta que se dá ao clima, ao espírito do lugar, à cultura e à função. Cumprindo estes aspectos, a forma depende do gosto de quem faz a encomenda ou da expertise do arquitecto. É isso que gera o desenvolvimento! Nos países onde já existem políticas públicas de arquitectura, as autoridades em alguns casos definem um padrão a seguir, que as vezes é de consenso, outras gera polémica. Neste momento, estamos a assistir de longe a polémica gerada pela administração Trump, ao exigir que todos os edifícios públicos devem ser feitos no estilo clássico.

O que é que deve ser feito para se preservar e conciliar o antigo com as novas tendências urbanísticas?
Devem ser criadas políticas rígidas ligadas ao património cultural. Já existe uma legislação de base, mas tem sido atropelada sistematicamente.

O sector da Arquitectura pode ser um catalisador do desenvolvimento socioeconómico?
Arquitectura faz parte de um grupo de actos que a antropologia clássica estuda como “Facto Social Total”, e não aproveitar esta potencialidade seria um erro histórico para a nossa geração.

Há a intenção da ordem apostar nas acções do PRODESI, bem como do PAC. De que forma poderão os filiados da ordem dos Arquitectos aderir?
Os associados poderão aderir através dos respectivos gabinetes de arquitectura, que na realidade são pequenas e médias empresas, legalizadas, que também pagam contribuições ao Estado, e é produção nacional. Tem a única particularidade que o produto é bastante específico.

Que mecanismos a Ordem irá desenvolver para o uso dos materiais de construção civil feitos nas fábricas angolanas?
Esta abordagem já entra no campo das Políticas Públicas de Arquitectura. O primeiro mecanismo é o incentivo ao uso de materiais fabricados localmente. Já estamos a criar uma base de dados destes materiais. Esta abordagem levanta outras questões que serão resolvidas com a implementação de políticas específicas. Um segundo aspecto será o incentivo ao uso de técnicas construtivas de domínio das nossas populações, sendo que, no final, esta abordagem vai se reflectir na criação de mais postos de trabalho e dinamização de economias locais. É um processo e o importante é começar. As técnicas construtivas das nossas populações devem igualmente ser inventariadas e criar-se manuais de boas práticas.

O país já tem uma política pública de Arquitectura?
Não. Esta abordagem é nova. Aproveitando os programas já existentes do Executivo, vamos colocar a Arquitectura ao serviço da economia. Numa segunda fase ao serviço da nossa Cultura e Tradições e na terceira fase ao serviço da Saúde. O campo de aplicação é vasto e subtilmente vamos implementando em outras áreas da vida social. É o que chamamos de arquitectura enquanto recurso estratégico da actuação do Estado. É exatamente o que está a fazer a administração Trump, mas devido a uma questão muito específica. “Fazer parecer que a América é uma nação adulta e séria, só mesmo através das estruturas arquitectónicas do Estado.” É sabido por todos que Trump, na sua actuação política, colocou em dúvida a seriedade do Estado americano e estão a tentar usar a arquitectura para dar um jeito.

Que contributo a Ordem tem estado a dar para que a estratégia seja mais abrangente e abarque todas as sensibilidades?
As políticas públicas só funcionam na sua plenitude quando é uma estratégia do Estado. Enquanto entidade máxima no Estado angolanopara a regulação do exercício da arquitectura, estamos a fazer a nossa parte, passando a visão aos arquitectos e procurando colocar na agenda da governação ter a arquitectura como um recurso estratégico da sua actuação.
Há necessidade de implementação de políticas públicas de arquitectura

Quantos filiados a Ordem controla?
A Ordem controla cerca de 1. 500 arquitectos, entre profissionais por conta própria, por conta de outrem e também da função pública.

Estão presentes em todas as províncias?
Temos arquitectos em praticamente todas as províncias, embora o grosso se encontre em Luanda. Daí a grande necessidade da implementação de políticas públicas de arquitectura, onde um dos exercícios seria a distribuição dos arquitectos pelo território, tendo em conta a população existente em cada província.

Em termos arquitectónicos, qual é a cidade ou edifício que lhe encanta?
Cada cidade ou província angolana tem características muito próprias e estas particularidades me encantam. Sempre que tenho a oportunidade de visitar uma delas, como estou formatado para ver o lado positivo das coisas, fico sempre encantado.
A nível internacional…
Brasília surpreendeu-me por parecer um museu a céu aberto.

Deixar uma resposta

Navegar